Sou local, vou a concertos há muitos anos, mas neste último ano—culminando com o Festival F que findou ontem, tenho ficado incrédulo com a reação anémica do público.
Ninguém bate palmas, poucos reagem quando os artistas tentam comunicar, ou quando entram em palco. Aqueles momentos, tipo "esta música é dedicada ao meu filho", como foi o caso da GRANDE Carminho, despertou perto de reação nenhuma. Uma outra música interpretada por ela—"rouxinol do Mondego"—sobre a qual ela levantou a questão da escrita misógina de antigas músicas de fado, após reação da Carminho explica esta anemia: "algumas palmas e algum silêncio... bem. Isto já quer dizer qualquer coisa não é".
Artistas mais novos, ao que pensei, bom... se calhar é isto que a malta quer... estava a implorar por um pouco de vida do público. "A ver se era esta que estavam à espera".
No Teatro das Figuras: O sócio da régie, em 2 concertos a que fui, parecia estar a dormir. Música pré-espectáculo acaba. E assim ficou até entrar o artista em palco... 10 minutos depois. Ficámos ali: No vácuo. Depois ele queria falar ao mic para salutar o público. Desligado. Toc-toc. Check 1-2. Lá o sócio da régie acordou e o artista se fez ouvir. Nas vezes seguintes, nem apontar o spotlight, nem ligar o mic. Devia estar a fumar a sua no terraço. Não sei. Sei que este artista e o principal acabaram por cagar no mic e ir mesmo à capela. Vergonhoso.
Do outro lado, o público. Acaba a música, 3 ou 4 pessoas batiam palmas.
E do que observei, não é um problema geracional. Do míudo ao graúdo parece que mergulharam num pote à la Obelix pejado de anti-depressivos ou haxixe pesadíssimo que deixa qualquer um a dormir, mas de olho bem aberto e vermelhusco.
Todas as bandas que vi levaram com o mesmo tratamento. Anemia comunitária. Não sei se mentalmente havia um double-tap ou se já estamos todos tão "otimizados" que já nem precisam de nos mexer para dançar ou bater palmas para reconhecer o fruto do trabalho árduo dos artistas.
Em contraste: a silent disco estava A BOMBAR. Os concertos.. tipo... com pessoas e tudo é como descrevi. Anti-climax.
Está calor. Os concertos são tarde. Percebo tudo isso. Também andei a suar do bigode a noite toda... Mas do que tenho observado, e vale o que vale, a estação do ano, temperatura ou grau de precipitação é irrelevante. O que é aparente, é que parece que estão todos a ver TV, um streaming ou qualquer outra experiência isolada que não requer uma reação para quem está a produzir o entretenimento que nos levou ali... e a pagar.
Mas o que é que se passa? Anda tudo a dormir?
Ou toda a festa e festinha tem apenas o objectivo do "ver e ser visto"?
Duas músicas que enquadram esta, não só minha, frustração e que foram cantadas no Festival F:
Mind da Gap – P.O.L.Í.T.I.C.O.S.:
"[...] E o nosso povo - está sobre anestesia / Vive adormecido, mudo, quedo, parado / Neste estado, cheios de medo / Não é segredo, praticamos terapia / E o nosso povo - acordará um dia"
Mind da Gap — O Jardim (nesta... enfim, toda a letra vale):
"Vem visitar este canteiro encantado chamado portugal
Que apesar de pequeno, tem cá de tudo
Tem auto-estima em falta e fervor nacionalista:
Uma das contradições compiladas nesta lista
Este país não é pra velhos, nem novos
Há quem diga que é pra corruptos e preguiçosos
Com uma economia paralela ao mais alto nível
Recebemos bem, pagar pode ser impossível
Mas temos praia e sol, jogadores de futebol,
Temos fátima e fado, temos palavras como o "lol"
Temos dívidas, mas temos submarinos no paiol,
Temos coração mole, mordemos sempre o anzol
Das figuras na tv, shows de realidade
Cus, mamas e cabeças falantes de qualidade
Já não devíamos ter algum juízo com esta idade?
Até quando seremos meninos sem maturidade?"
E pá... sim. É um desabafo. Se chegaste aqui, palmas para ti aqui do G.
Nem tudo aqui está certo, nem errado. Mas essa binarice a que nos habituaram, pouco nos tem acrescentado. As respostas geralmente estão nas zonas cinzentas para quem põe a sua massa cinzenta a trabalhar.
Para já, parece que pelo menos nesta cidade, já se age como se estivessem no Estado Novo. Não fazer, para não fazer mal, parece ser a norma.
Parece que têm medo. E medo é visto como a maior ameaça à liberdade. Li nas redes. Gostei da frase e partilhei. É essa a dinâmica social mais em voga não é?
Quando essa [liberdade] for, seremos obrigados a bater palmas nos tempos certos. Males que vêm por bem? Dass... foge filho.
Por isso, se estão com medo de governos de extrema direita, acho que já nem precisamos de chegar a tanto, que os casulos estão montados e nestas casas só parece caber o ego de cada um, porque fora do casulo não há casa para ninguém.
Desabafo de quem está triste com este país que parece tão cansado que nem a pagar se parece querer divertir. Mas freebies??? E estar em filas para recolher brindes? Uá mãe... aí o ânimo é outro.
E para o grand finale: À saída, uma mãe a seguir com o carrinho de bebé pela calçada, ficou com a roda presa. Pediu ajuda ao marido—giro, aquele olho verde mesmo miau—que ficou a olhar para ela e disse "puxa pra cima". Eu estava de passagem, e ajudei-a. 2 segundos, "obrigado" siga caminho. Lá continuou ela caminho a baixo com dificuldade naquela calçada bem espaçada, o bacano agradeceu (baixinho mas deu para ouvir) e siga. Ela que faça o trabalho de carregar a cria dentro e fora da barriga. Meu dude: Não podias ser tu a fazer isso? Estar com uma criança de 2 ou 3 anos a sair de um festival perto das 2h da manhã, já é outro assunto... macho-esfera dependente de mulheres. A ironia não acaba.
A classe política pode-nos deixar pobres. Desaponta-me parecer que estamos a ficar pobres de espírito também.
“I'd like to have a revolution, but everyone is too busy shopping” Benjamin Obadiah Iqbal Zephaniah (o padre de Peaky Blinders).